Domingo de Circo
Toda tua chegada nessa radiosa manhã de domingo embandeirada de infância. Solene e festivo circo armado no terreno baldio do meu coração.
As piruetas do palhaço são malabaristas alegrias na vertigem de não saber o que faço.
Rugem feras em meu sangue; cortam-me espadas de fogo.
Motos loucas de globo da morte, rufar de tambores nas entranhas, anúncio espanholado de espetáculo, fazem de tua chegada minha sorte.
Domingo redondo aberto picadeiro, ensolarado por tão forte ardor, me refunde queima alucina:
olhos vendados,
sem rede sobre o chão,
atiro-me do trapézio
em teu amor.
Do livro A Arte de Semear Estrelas, de Frei Betto.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Circonteúdo : para quem gosta do mundo circense


Circonteúdo é o terceiro projeto de parceria entre Erminia Silva e Marcelo Meniquelli. A proposta, desta vez, é criar um lugar na web especialmente para o circo. O site já nasce com um conteúdo respeitável, nele estão inclusas todas as informações revisadas e atualizadas do Pindorama Circus (primeiro do gênero no Brasil), que passa a fazer parte como patrimônio histórico do Circonteúdo
É na reafirmação de nossa luta política pelo reconhecimento do CIRCO COMO PATRIMÔNIO CULTURAL, que temos como perspectiva que o site se torne uma das referências para a produção e divulgação de estudos, pesquisas, publicações, trabalhos artísticos e educacionais sobre as artes circenses, no Brasil e na América Latina.




Betinho, 15 anos


Betinho, 15 anos

Publicado: 09/08/2012 por Atila Roque em Direitos HumanosMemórias
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Duas ou três coisas que sei sobre ele

“Essas lembranças são dedicadas a Maria e Henrique”
Esse pequeno artigo foi escrito em 2001 e publicado no livro “Estreito Nós: lembranças de um semeador de utopias”, organizado por Chico Alencar, reunindo uma coletânea de depoimentos sobre Herbert de Souza, o Betinho. Na data em que completa 15 anos desde que ele, bastante a contragosto, nos deixou, achei por bem republicar no Opinativas como uma modesta lembrança dessa figura que tanta falta faz no Brasil de hoje.
Falar sobre Betinho é ao mesmo tempo difícil e fácil. Ele era dessas pessoas que cativam, despertam admiração e simpatia, sem intimidar ou afastar. Muito pelo contrário. Era extremamente acessível. Despertava familiaridade e não se importava de parar para conversar com qualquer pessoa. Mas esta facilidade transforma-se, hoje, em dificuldade para se escrever sobre ele. A escrita empresta certa solenidade ao depoimento e, cá entre nós, Betinho se prestava a tudo, menos às solenidades. Ele as odiava tanto quanto odiava colocar ternos. “Parece sempre que o defunto era maior”, dizia com aquele senso de humor bem de irmão de Henfil. Um humor ferino e autocrítico que se revelava inteiro nos momentos de intimidade com os amigos.
Betinho gostava de rir. E era muito engraçado. Era capaz de tiradas simplesmente imprevisíveis. Como aquela vez em que depois da décima tentativa de falar com ele sobre um projeto que estava apresentando na Câmara dos Deputados, o deputado Amaral Neto – famoso pela defesa da pena de morte, abominada pelo Betinho – resolveu enviar um fax reclamando da indelicadeza da falta de resposta aos seus telefonemas e enviando o texto do projeto. Não lembro mais sobre o que era, mas lembro bem que Betinho achou muito bom e ficou acabrunhado com a própria intransigência por se negar, sucessivas vezes, a atender as chamadas do deputado. Pegou o telefone e quando Amaral Neto atendeu, começou o diálogo assim: “Deputado, desde pequeno minha mãe me ensinou que eu não devia falar com o senhor. Como o senhor pode ver, as mães nem sempre estão certas!”. Pronto. Os dois riram e conversaram. Betinho continuou até o final da vida sendo radicalmente contrário a quase todas as idéias do deputado Amaral Neto, mas naquele dia eles conversaram sobre um projeto que lhe parecia muito bom. Salvos pelo bom humor.
Por essa e por outras é que não sinto muita vontade de escrever sobre o Betinho personalidade pública. Outros certamente o farão com brilho neste livro. Embora tenhamos convivido profissionalmente durante praticamente todo o tempo em que fomos amigos, acho que sempre tive uma certa dificuldade de vê-lo como o herói cívico que ele, de fato, foi. E isso não decorre de nenhum cuidado especial que ele tivesse em preservar a vida privada das inquietudes permanentes da agenda pública com a qual esteve permanentemente envolvido durante praticamente a vida inteira. O engajamento de Betinho com os temas centrais da democracia era visceral e não simplesmente profissional. Era paixão pela vida. Inescapável e avassaladora. Os amigos e a família eram tragados por ela.
Mas as paixões públicas em Betinho conviviam em harmonia com as muitas paixões privadas. E acredito que essas últimas ofereciam os alicerces sobre as quais as primeiras se sustentavam. Uma dessas paixões era a que nutria pelos amigos. Era uma coisa vital e imprescindível. Ele foi uma das pessoas com as quais mais aprendi sobre o sentido profundo e transformador da amizade. Amizade como relação que exige, antes de mais nada, a certeza da intimidade e da confiança mútua. Não me refiro, portanto, a essas amizades modernas que se sustentam principalmente na experiência social cotidiana, o convívio no trabalho, os lazeres compartidos, mas que raramente sobrevivem às descontinuidades inevitáveis da vida. Com Betinho a amizade era uma vivência menos frenética, avessa ao excesso de novidades, mais propensa a descobrir outros ângulos na mesma coisa, às mil variações possíveis, como uma fuga de Vivaldi. E assim se chegava com ele a essa raridade na vida que é a possibilidade de nos tornarmos íntimos de outra pessoa. Era essa intimidade que permitia a Betinho, com cada uma das pessoas com as quais mantinha relações afetivas, imprimir uma marca que dava aquela sensação de exclusividade própria aos amigos.
A nossa intimidade era construída a partir de algumas referências constantes. A música, naturalmente, era uma das principais. Betinho foi em grande medida um dos responsáveis pela redescoberta de uma paixão dos meus 20 anos: as rodas de música. Em alto estilo. Em encontros musicais que gostava de promover na sua casa ou comparecer em casa de outros amigos. Como aquela vez em que ele ligou convidando para uma noite na casa de Aldir Blanc. Privilégio de poucos escolhidos. Mas sem a solenidade que os nomes reunidos poderia suscitar. Nesses momentos eu via Betinho tomado da mais pura felicidade. Tomando cerveja, cantando, arranhando direitinho uns acordes ao violão, sentado em rodas que incluía Aldir, Fátima Guedes, Lenine, Guinga, Sueli Costa, Moacyr Luz, Carlinhos Malta e mais uma penca de craques. Bonito de ver. A música era capaz de mobilizá-lo a ponto de enfrentar uma viagem de muitas horas até uma cidade mineira para assistir a um ensaio do grupo Uakti. Ou se submeter ao risco de vexames como aquela vez em que, distraídos, chegamos – Betinho, Maria e eu –  à porta de um show do Raphael Rabello e do Ney Matogrosso, esquecidos de qualquer dinheiro, cheque ou cartão de crédito. O jeito foi abusar da amizade que ele tinha com Raphael e pedir, faltando 10 minutos para o início do espetáculo, para avisar que Betinho estava na porta, sem dinheiro, mas queria assistir ao espetáculo. Entramos: rindo do vexame e felizes por não termos que voltar para casa.
Betinho também gostava de dirigir, entendia de carros e odiava fuscas. Achava fuscas inseguros. E, para azar dele, durante vários anos, eu tive justamente um fusca, cor-de-abóbora. Era nos momentos em que passeávamos no meu fusca que ele destilava a sua raiva. Chegava quase a praguejar, dizendo sempre que devia trocar o carro antes que ele fosse roubado. Afinal, eu morava em Santa Teresa, o fusca dormia na rua e todos sabiam que era objeto escolhido de ladrões supostamente associados a uma mítica indústria clandestina de bugres. Não sei se fuscas ainda são roubados com freqüência, desconfio que não: bugres saíram da moda. Mas era engraçado surpreender o olhar espantado das pessoas ao reconhecerem Betinho descendo na porta do cinema ou do restaurante de um fusca tão alquebrado. Não imaginavam quanto a contragosto ele se submetia aquilo. Acho que era por amizade e preguiça de dirigir no trânsito do Rio. Ele era, aliás, um excelente motorista. Algo imprudente. Gostava de correr, adorava conduzir o seu Monza automático até Itatiaia. Era defensor de carros grandes, pois os achava mais seguros. Dizia que era melhor comprar um carro grande mais velho do que um pequeno novo.
Itatiaia é um capítulo à parte na vida de Betinho. O paraíso terrestre. Era lá, na linda casa projetada por Noguchi, um arquiteto amigo e genial, que ele cultivava a arte de deixar o tempo passar. Foi no terreno da casa que distribuímos as cinzas do Betinho, conforme era o seu desejo. Entre as mangueiras e lindos pés-de café, no córrego que cruza a propriedade, na horta onde Betinho colhia as folhas de rúcula que acompanhava as maravilhosas refeições tratadas com mão de anjo pela Maria. Era em Itatiaia que ele exercia com esmero o que era o seu principal dote culinário: fazer arroz. Uma verdadeira cerimônia japonesa da qual ele não abria mão: uma delícia. Em Itatiaia jogávamos sinuca e muita conversa fora noite adentro, ao redor da fogueira ou, simplesmente, sentados nos batentes das janelas com olhares perdidos naquele céu inacessível. Conversas na companhia indefectível do Dr.Walber, médico e amigo, contador de histórias e matador na sinuca. Olha, Itatiaia e suas histórias mereciam todo um livro!
Uma paixão tardia, mas avassaladora foi pelos cães. Culpa do Zico, um vira-lata de estirpe certamente nobre, presente recebido pelo filho Henrique que rapidamente ocupou espaço insuspeitável no coração de Betinho. Ele dizia que depois da chegada do Zico tinha passado a entender perfeitamente a clássica explicação do ex-Ministro do Trabalho, Rogério Magri, quando flagrado utilizando carro oficial para o transporte do seu cãozinho doméstico: “Cachorro também é gente!”. E como somente quem ama cães é capaz de entender, o Zico fazia jus à condição humana: comia mamão na colher, assistia ao noticiário deitado na cama e participava das entrevistas aos jornais. A paixão era tanta que comprometia definitivamente a objetividade de Betinho. Por exemplo, ele se recusava a aceitar a óbvia condição (nada degradante, diga-se de passagem) de vira-lata do Zico. Depois de ler ou ouvir falar sobre algumas das características do temperamento dos cães de raça Labrador (apego ao dono, inteligência, gosto pela água etc), encasquetou-se com a idéia de que o querido Zico era um descendente direto de um Labrador. Não adiantavam as óbvias discrepâncias físicas decorrentes do fato de Zico ser um cão de porte definitivamente pequeno, pernas curtas e focinho fino. As dúvidas eram  tratadas como ofensas ao dono. Foi preciso um episódio na ponte Rio-Niterói para desfazer o mal entendido. Estávamos a caminho de Rio Bonito quando avistei, na caçamba de uma camionete, um belo exemplar de Labrador, preto e musculoso, visivelmente habituado aos exercícios físicos que tanto alegram a raça. Virei para Betinho e disse com um prazer quase perverso: “Betinho, olha aí no carro ao lado um cachorro da mesma raça do Zico”. Ele resmungou, emburrou um pouco, mas depois – como sempre fazia quando era pego na contramão – riu e deu o braço a torcer: o parentesco era realmente distante.
Betinho também era herético. A juventude cristã tinha deixado marcas. Preservou o humanismo e a ética da solidariedade, mas desconfiava das religiões institucionalizadas. Quando morreu tivemos muito trabalho em garantir a ausência de símbolos religiosos (crucifixos e coisas afins) no aparato que acompanha a morte. Acho mesmo que flagrei nele um sorriso de Fradim para a nossa dificuldade de encontrar um caixão que não trouxesse alguma dessas marcas. Mas não era uma aversão militante. Estava mais para o gozador e o irônico. Às vezes beirava a provocação. Foi assim uma vez em que falando para um público evangélico disse que para combater a fome era capaz de buscar alianças até com o diabo. Era força de expressão, mas pegou mal e teve que se desculpar. Chegou a conclusão que o diabo era coisa séria e nunca mais repetiu o mote. Gostava de contar e ouvir histórias de assombrações. Eu tenho algumas vividas na adolescência e ele tinha outras tantas, realmente horripilantes. Os fantasmas do Betinho assombravam pra valer, mostravam-se como espectros e faziam muitos ruídos. Mas o que ele apreciava de verdade era juntar sexo e religião. No fundo ele achava que todo padre e toda freira mantêm adormecidos (e às vezes nem tanto) desejos libidinosos prontos a eclodir a menor provocação. Nem as imagens escapavam. Era mestre em encontrar traços dessa lubricidade nas imagens religiosas. Um anjinho com carinha de sacana, uma Nossa Senhora com ares de Maria Madalena antes do arrependimento ou, até mesmo – heresia máxima com as imagens religiosas que o vi capaz de cometer –, traços flagrantemente femininos em uma escultura de Jesus Cristo. Esta última chegou a ser objeto de um ensaio fotográfico onde detalhes da anatomia eram cuidadosamente destacados e ampliados. As fotos foram utilizadas para iludir companheiros de trabalho no Ibase, extremamente pios (e libidinosos), que somente ao final descobriam estar vendo sensualidade em partes do corpo destacados de uma imagem de Cristo. Fui escolhido por Betinho para fazer as fotos e desconfio que alguns que as viram estão até hoje rezando em penitência pelos pensamentos a elas dedicados …
Era também um mestre na arte de convencer você a fazer qualquer coisa. Não tinha escapatória. Ele não sossegava enquanto você não comprava a idéia. Era uma temeridade passar em frente a sua sala de trabalho no Ibase quando estávamos muito atarefados. Ele nos convencia imediatamente a alterar a nossa ordem de prioridades. Saíamos invariavelmente com uma pilha de novas responsabilidades. Costumávamos brincar no Ibase que o Betinho era responsável pelo “departamento das demandas transversais”. Era sim um furacão de idéias. Tinha uma por minuto. Poderia ter gerado mais umas 100 campanhas contra fome. Tomado por um permanente sentido de urgência dizia que não tinha tempo a perder. Brincava com a própria fragilidade dizendo que uma maneira de permanecer vivo era continuar agendando coisas a fazer no futuro. Como não era de faltar a compromissos assumidos trataria, portanto, de não morrer. E quando flagrava nos amigos ou colaboradores um ligeiro (e, às vezes, justificável) ar de cansaço, baixava o espírito de porco do Henfil e perguntava: “quer um pouquinho de AIDS para ficar mais animado?”
Aliás, Betinho não tinha nada de frágil. A energia e a paixão que colocava em quase tudo que fazia nos levava, simplesmente, a esquecer as irredutíveis limitações impostas pela condição original de hemofílico e, depois, de portador de AIDS. Acho que a única vez em que o encontrei realmente frágil e abatido foi por ocasião das mortes dos dois irmãos, Henfil e Chico Mário, com uma diferença de apenas alguns meses. Como ele mesmo escreveu em uma linda e dolorosa carta:  “foi a experiência do horror”. A dor dessas duas perdas ele não teve como evitar. Bebeu cada gota do sofrimento dos irmãos. E foi ali que também decidiu que não iria sofrer para morrer. Arrancou de todos nós, amigos, médicos e família, esse compromisso. Não queria viver até a última gota. A morte não precisava vir acompanhada da dor. Tinha uma tranqüilidade perturbadora com a morte. Aceitava sem medo ou mistério. Era um fato. E foi com essa tranqüilidade que um dia me entregou a bela carta que tinha escrito para a Maria, para ser entregue depois de sua morte. Uma declaração de amor a ela e a tudo que viveram juntos. O fez sem dramas. Disse que deixava duas cópias, uma comigo e outra com o João Guerra, amigo de longa data, explicando marotamente a razão da duplicidade: “Vá lá que você morre primeiro do que eu e não entrega a carta”. Não morri, mas valeu a precaução. O arquivo em disquete entregue ao Guerra foi destruído por um vírus.
A verdade é que Betinho viveu com sabor e gosto. Conheço poucas pessoas que vivem com o prazer e o amor a vida demonstrados por ele. Ele celebrava a vida todos os dias. Dizia ser um homem de sorte por ter sobrevivido a tantas intempéries: hemofilia, ditadura, exílio e AIDS. Foi assim até aquele final de tarde em seu apartamento em Botafogo quando, enfim, morreu cercado pelos amigos mais próximos, com a Maria e os filhos. Ouvindo música e com senso de humor para fazer algumas piadas. O último pedido que me fez foi que trouxesse o violão e tocasse. Infelizmente não deu tempo. Mas assim somos, diria Betinho: um belo dia o tempo nos falta e deixamos coisas a fazer. Dele sinto muitas saudades. Mas raramente sou assaltado por sentimentos de tristeza ou melancolia. Pensar na  minha convivência com Betinho sempre me inunda de alegria. Acho que era assim que ele gostaria que fosse.
Atila Roque
Rio de Janeiro, 20 de Agosto de 2001.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Livros de Paulo Freire disponíveis para download



Agora você não precisa mais esperar o livro estar disponível na biblioteca! Faça já o download gratuito das obras de Paulo Freire. 

Livros de Paulo Freire:


Se você se interessou pelas obras acima, mas não tem como fazer o download, não se preocupe! Mande um e-mail para a Biblioteca Central (biblioteca@uergs.edu.br) com o nome do livro que deseja e nós enviamos o arquivo para você!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Há 104 anos nascia Solano Trindade, o criador da poesia negra brasileira



A leitura dos seus versos deu-me confiança no poeta que é capaz de escrever Poema do Homem e O Canto dos Palmares. Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva.”. Assim Francisco Solano Trindade, nascido em 24 de julho de 1908, em Recife-PE, foi descrito pelo escritor e poeta Carlos Drummond de Andrade.

Poeta, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta, Solano Trindade fez uso de seu talento a favor da luta contra o racismo e ao estudo e difusão da cultura afro-brasileira, além de ser reconhecido por vários críticos, como o criador da poesia “assumidamente negra” no Brasil.

Leia mais em:
http://ppaberlin.wordpress.com/2012/01/26/solano-trindade-o-poeta-maior-da-negritude-brasileira/

http://www.palmares.gov.br/2012/07/ha-104-anos-nascia-solano-trindade-o-criador-da-poesia-negra-brasileira/

Brinquedos educam desde a pré-história



É COISA SÉRIA!
BRINQUEDOS EDUCAM E MUITO
Confesso que os jogos infantis eletrônicos ou contemporâneos não me atraem. Mas atraem meu filho Moisés, de 12 anos. Venho me perguntando se jogos tradicionais e artesanais poderiam substituir tal vontade. E não é que consegui me surpreender?
Em agosto de 2009, viajando pelos arredores de Brasília, em Pirenópolis, Goiás, comprei um pião e um bilboquê, de madeira.Cheguei em casa e apresentei os dois brinquedos. Meu filho achou interessante. Fiz o desafio e mostrei minha destreza com os brinquedos. Ele se apaixonou e me pediu para ensinar como jogar. Em poucos minutos trouxe um amigo e mostrou o jogo. Seu colega não conhecia e disse duvidar de alguém que conseguisse jogar a bola furada pra cima, virar a bola e aparar encaixando um pau do bilboquê. Ou bibioquê, como se diz na região do Vale do Jequitinhonha. 
Fiz algumas apresentações. Foi chegando meninos e adolescentes. Gostaram. Ficaram extasiados. Diziam que parecia coisa de circo. Fizeram desafios entre eles. Quando chegava um que não conhecia eu era chamado para mostrar a beleza do jogo. Saíam eles a conquistar novos adeptos.
Me pediram para jogar pião. Mostrei a peça de madeira, parecendo uma botija com um pino de aço na parte mais fina. Enrolei o barante devagar no corpo do pião para que eles aprendessem. Joguei o pião na roda. Ele deu dois saltos e caiu no meio, girando, zunindo. Fiz o bichinho rodar por alguns minutos, “dormir”, rodar sem mexer, em um pontinho marcado do piso de cerâmica.
Pronto! Consegui, por um dia, fazer uma galerinha esquecer o playstation 2 e se mirar nos meus brinquedos de infância.
Falei para eles que eu próprio e meus amigos fazíamos os nossos brinquedos. A gente cortava pau no mato e saía roletando, cortando, lixando, até chegar no que queríamos: pião, bilboquê, carrinho, apitos, currupio, cavalo de pau, bolas de borracha de mangaba, e por aí vai.
Os garotos já marcaram novas disputas na semana. E já pensam em campeonato. Uns querem fabricar seus brinquedos. Vibrei mais do que eles.

HISTÓRIAS DOS BRINQUEDOS
Em trabalhos de educação popular constatei que os jogos desempenham um papel que facilita a integração no meio, favorecendo o processo de ajustamento da criança ao convívio de outras. A atividade lúdica, facilita, portanto,a função socializadora, que se aperfeiçoa com o passar do tempo. Os jogos de tabuleiro, como o xadrez e as damas, ajudam o crescimento da inteligência. Os passatempos (adivinhações, parlendas, leituras, teatro, etc) e as mágicas, além de práticas educativas, auxiliam o desenvolvimento intelectual da criança e do adolescente.
Estudos indicam que os jogos e as brincadeiras são tão antigos quanto a civilização. Vários tipos de brinquedos foram encontrados nas ruínas do Egito, da Babilônia, China e Civilização asteca. Os jogos do tabuleiro já eram conhecidos pelos egípcios cerca de 2500 a.C., como já mostram figuras esculpidas nos túmulos. Os jogos de bola também já eram praticados no Egito e na América pré-colombiana. As Olimpíadas dos gregos já existiam desde 776 a.C., em honra ao deus Zeus. O jogo das argolas, a cabra-cega, o cabo de guerra e outros eram praticados pelas crianças da antiguidade.

TIPOS DE BRINQUEDOS
Os brinquedos costumam ser divididos em materiais (boneca, bola, carro, trenzinho) e imateriais ( barra, círculo, alvo, esconde-esconde, pega-pega). Ou podem ser classificados em folclóricos (que alguns chamam de artesanais ou tradicionais) e mecânicos (ou atuais).
Os brinquedos populares aparecem, geralmente, nas feiras de artesanato, feitos de madeira ou de lata, pintados e atraentes, ao alcance de todos. A construção de brinquedos artesanais deveria ser incluída nos currículos escolares, na disciplina de Educação Artística, fazendo com que as crianças e adolescentes se vejam incentivados a mostrar suas próprias criações.
Alguns brinquedos tradicionais são: a boneca, o pião, pipa ou papagaio, o balanço, o bilboquê, dialobô, ioiô, xipoca, estilingue/atiradeira, arco, peteca, papa-vento, soldadinhos de chumbo, balão, marionetes ou títeres, cama de gato, gangorra, carrinho de madeira, aro metálico, patins, patinete, bicicleta, jogo da velha. Nos jogos e brinquedos infantis está incluída uma série de formas de atividades que , futuramente, serão aproveitadas e contribuirão para desenvolver, na criança, certas habilidades. 

No Brasil, os jogos e divertimentos tradicionais sempre tiveram muita aceitação , desde os tempos coloniais, incluindo os de origem indígena.

Com informações da www.cempem.fae.unicamp.br/.../seminario.htm

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Primeira Minibiblioteca de Curitiba


A Primeira Minibiblioteca de Curitiba funciona na loja da Aida, mãe da Júlia, a Apoio, com suas portas voltadas diretamente para a rua e no mesmo regime que a Bibliopote: você pode emprestar livrosquando quiser, devolvê-los quando quiser, não precisa de carteirinha, nem pedir para quem quer que seja. Não há prazo de devolução e, portanto, também não há multa por atraso.
Não se preocupe com a grade: mesmo com ela fechada, à noite ou durante a madrugada, é possível pegar, devolver ou doar livros.
Para quem não acompanhou desde o princípio:
Algumas instruções de uso para a Minibiblioteca. Ainda vou providenciar um carimbo que explique o funcionamento.
Ainda há poucos livros, mas eu mesmo doarei 20 e a Júlia mais 20 e diversos autores e editores já estão enviando suas contribuições para o endereço:
Primeira Minibiblioteca de Curitiba
Rua
 Petit Carneiro, 453 – Bairro Água Verde
Curitiba  – Paraná – CEP 80.240.050
Fone
: (041) 3016-1041
Minha experiência com a Biblioteca Livre Pote de Mel mostra que logo teremos que ter mais minibibliotecas para colocar as inúmeras doações que logo chegarão.
Eis alguns dos livros que chegaram:
A minbiblioteca já teve seus primeiros clientes ontem.
Um carrinheiro passava com a família. As crianças ficaram logo curiosas com a casinha. A mãe:
- Eu já expliquei que não é para mexer no que não é de vocês!
A Aida:
- Mas aí é para mexer sim. É de todos.
As crianças adoraram pois havia já diversos livros infantis. A mãe explicou que eles tinham diversos livros que já haviam lido. Assim que lerem os que tomaram emprestados, trarão esses e mais aqueles.
Eles, o carrinheiro, sua mulher e seus filhos, garanto, vão divulgar e proteger a nova minibiblioteca de Curitiba. O que você vai fazer? Agradeço o apoio de todos.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

26 filmes para assistir com seu filho


Um filme não precisa ser didático para ensinar valores importantes na formação dos alunos. Conheça obras do cinema aplaudidas por críticos e professores


19/07/2012 16:52
Texto Gabriel Navarro
Educar
Foto: Fábio Mangabeira
Foto: O cinema é capaz alimentar o intelecto com diversão
O cinema é capaz de alimentar o intelecto com diversão
Todos podem se espelhar em exemplos do cinema para descobrir maneiras de aprender e ensinar melhor. Sem deixar de se divertir nem se emocionar. Como explica a professora de Cinema e vice-coordenadora da Cinemateca da PUC(Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Verônica Ferreira Dias, um filme "é sempre algo atrativo, porque traz entretenimento e reflexão também".

Para ela, quando a sétima arte retrata processos de aprendizado bem-sucedidos, é capaz de despertar o espírito crítico da sociedade. "As pessoas acabam repensando o sistema educacional, já que nem sempre têm paciência para ouvir discursos teóricos de especialistas". E Verônica não está sozinha. Arte-educador e doutor em Educação pela USP (Universidade de São Paulo), Marcos Ferreira dos Santos pensa de modo semelhante. "O cinema faz com que a gente tenha um 'olho privilegiado' e consigamos entrever coisas invisíveis em certas situações".

Por outro lado, o professor tem suas ressalvas e não acredita que campeões de bilheteria sejam os mais indicados para falar sobre Ensino. "Blockbusters são direcionados demais para fins comerciais, não saem do lugar-comum, e por isso é difícil alguém acordar para a necessidade de aprender". Será? A professora da PUC acha que os chamados "filmes de arte" não conseguem atingir as massas e acabam sendo um esforço muitas vezes sem grandes resultados.

"Algo como Legalmente Loira contesta o estereótipo da 'patricinha loira e burra', quando ela chega à Harvard e faz o público enxergar que o importante é o esforço pessoal", comenta Verônica. Clássico, cult ou popular, é sempre você quem decide. Conheça melhor abaixo os filmes selecionados pelo Educar que mostram como, de uma forma ou de outra, o importante é aprender uma lição para o resto da vida.

1. Dúvida
2. Ao Mestre com Carinho
3. Billy Elliot
4. O Céu de Outubro
5.  Escola do Rock
6.  Gênio Indomável
7. O Homem-Elefante
8.  Legalmente Loira
9.  Mr. Holland: Adorável Professor
10. Pink Floyd: The Wall
11. Sociedade dos Poetas Mortos
12. A Cor Púrpura13.O Sorriso de Monalisa 14. Uma Mente Brilhante15. O Clube do Imperador
16. Meu mestre, minha vida
17. Mentes que Brilham
18.
 A Onda
19. A Prova
20. Pro dia nascer feliz21. Encontrando Forrester22. Um Sonho Possível23. Entre os Muros da Escola24. O Preço do Desafio
25. Ser e ter26. Elefante

http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/cinema-educacao-410695.shtml?utm_source=redesabril_educar&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_educar&utm_content=cf

É hj: 94 anos do nosso Nelson Mandela!!!



Ícone da luta pela igualdade racial, dedicou 67 anos à luta contra o regime racista do apartheid, imposto pela minoria branca sul-africana até 1994. "Longa Caminhada Rumo à Liberdade", é o título da autobiografia do prêmio Nobel da Paz de 1993, que em breve terá mais uma marca de roupa lançada pela sua família. A linha de moda se chamará também "Longa Caminhada Rumo à Liberdade".

Leia mais em http://mulher.uol.com.br/moda/noticias/efe/2012/07/12/familia-mandela-lanca-grife-inspirada-no-ex-presidente-sul-africano.htm

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Livro: Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música, dança, hip-hop


Este livro aponta para a diversidade de práticas letradas que conformam a realidade brasileira e confronta as grandes desigualdades existentes entre grupos, segundo sua origem social, escolaridade, inserção profissional, faixa etária, gênero, raça. Mostra também que a compreensão dessa complexidade e, principalmente, as possibilidades de mudança nas práticas letradas dos sujeitos são reais.
Ana Lúcia Silva Souza demonstra aqui a complexidade dos letramentos quando em meio a atividades culturais e políticas, nas interações por meio da linguagem no movimento cultural hip-hop, ela se alia a sujeitos que descobrem, localizam, apontam, propõem, agem e ensinam outros a agir. Nesse movimento, eles reinventam e conjugam os letramentos da vida e o da escola. Desse modo, em Letramentos de reexistência, vemos uma escola contestada, mas também deslocada a favor dos jovens, quando eles conseguem repensar e atribuir sentidos sociais à instituição.
Serviço:
Autora: Ana Lúcia Silva Souza
Editora: Parábola
Fonte: Kitabu

Livro: A História Geral da África


 A História Geral da África



Publicada em oito volumes, a coleção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da coleção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projetos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a coleção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos.
Fonte: UNESCO

Livro "Imagens da Diáspora"



Durante três séculos, milhões de africanos foram obrigados a sair de suas terras para trabalharem como escravos na América Colonial. O Brasil recebeu a maior parte deles – cerca de cinco milhões de indivíduos. A imensa contribuição africana daí advinda não se limitou apenas ao mundo material, mas influenciou de forma marcante a arte, a língua, a religiosidade, a família e a vida do Brasil. Essa diáspora negra resultou numa experiência inovadora, misturando raças e gerando um povo novo no continente americano. Este livro resgata a trajetória africana no Brasil e ressalta a singularidade e a beleza do legado afro-brasileiro, aqui representado pelo traço inconfundível do trabalho da artista plástica Goya Lopes, acompanhado por textos esclarecedores do historiador Gustavo Falcón.

Fonte: Kitabu

domingo, 8 de julho de 2012

800 clássicos do jazz para ouvir on-line


Car­los Wil­li­an Lei­te  |  car­loswil­li­an@uol.com.br | @revistabula
A Accu Jazz, considerada a maior e melhor rádio de jazz on-line do mundo, disponibilizou um canal, uma seleção clássica com 800 músicas que fizeram a história do jazz. A seleção faz um passeio por todos os estilos e épocas, do Dixieland da década de 1910, passando pelas Big Bands dos anos 30, pelo Bebop dos anos 40, pelo  jazz latino das décadas de 50 e 60, pelo  Fusion das décadas de 70 e 80 até os ritmos jazzísticos dos dias atuais. Fazem parte da seleção nomes como John Coltrane, Miles Davis, Dave Brubeck, Art Tatum, Herbie Hancock, Billie Holiday, Sarah Vaughan, João Gilberto, Stan Getz, Sonny Rollins, Erroll Garner, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Charles Mingus, Chet Baker, Ornette Coleman, Duke Ellington, Thelonious Monk, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Bud Powell, Max Roach, Lester Young, Benny Goodman e Django Reinhardt.

Diferentemente de outros rádios on-line, a Accu Jazz não exige cadastro e o conteúdo é gratuito e integral. No site, ainda é possível navegar por 70 por sub-canais divididos por categorias como instrumentos, estilos, compositores, década e região, além de canais dedicados aos grandes festivais de jazz do mundo e às gravadoras como Blue Note  e ECM.  Para acessar: http://bit.ly/N9LzmR



sexta-feira, 25 de maio de 2012

Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica


Nildo da Mangueira, com Parangolé, 1964






por Jardel Dias Cavalcanti 

A idéia da criação dos Parangolés aparece para Oiticica no momento de seu envolvimento com o samba. O interesse por esta dança, por sua vez, nasceu, segundo o artista, de "uma necessidade vital de desintelectualização, de desinibição intelectual, da necessidade de uma livre expressão". O samba leva o participante a uma imersão no ritmo, na verdade, a uma identificação completa e vital do ato com o ritmo, fazendo com que o seu intelecto permaneça obscurecido diante das imagens móveis, constantemente improvisadas, rápidas e inapreensíveis durante a dança. Esta experiência da "lucidez expressiva da imanência", obtida na dança, leva Oiticica a criar o Parangolé.

Parangolé são capas, estandartes, bandeiras para serem vestidas ou carregadas pelo participante de um happening. As capas são feitas com panos coloridos (que podem levar reproduções de palavras e fotos) interligados, revelados apenas quando a pessoa se movimenta. A cor ganha um dinamismo no espaço através da associação com a dança e a música. A obra só existe plenamente, portanto, quando da participação corporal: a estrutura depende da ação. A cor assume, desse modo, um caráter literal de vivência, reunindo sensação visual, táctil e rítmica. O participante vira obra ao vesti-lo, ultrapassando a distância entre eles, superando o próprio conceito de arte.

Mas que fique claro, ao vestir o Parangolé o corpo não é o suporte da obra. Oiticia diz que se trata de "incorporação do corpo na obra e da obra no corpo". Nessa espécie de anti-arte, diz Oiticia, "o objetivo é dar ao público a chance de deixar de ser público espectador, de fora, para participante na atividade criadora".

Com o Parangolé Oiticia propõe ao espectador (agora participante) em lugar de meramente contemplar a cor, vestir-se nela. Este simples ato, que libera o participante do domínio da sensação visual, produz uma "maravilhosa sensação de expansão", criada pela incorporação dos elementos da obra numa vivência total do espectador.

O crítico Mário Pedrosa comenta a origem da criação do Parangolé por Oiticica: "Foi durante a iniciação ao samba, que o artista passou da experiência visual, em sua pureza, para a experiência de tato, do movimento, da fruição sensual dos materiais, em que o corpo inteiro, antes resumido na aristocracia distante do visual, entra como fonte total da sensorialidade".

Dá-se início a uma nova visão de como o ser humano e uma obra de arte podem integrar-se: a morte do espectador e o nascimento do participante.

No Parangolé, portanto, o motor ontológico é a capacidade de revelar a necessidade da ação. O vestir contrapõe-se ao assistir. Oiticica explica: "O 'ato' do espectador ao carregar a obra revela a totalidade expressiva da mesma na sua estrutura: a estrutura atinge aí o máximo de ação própria no sentido do 'ato expressivo'. A ação é a pura manifestação expressiva da obra". Para que a ação aconteça, exige-se a participação inventiva e improvisada do expectador, como acontece no samba.

A partir daí, o próprio conceito tradicional de exposição desaparece, pois nada significa "expor" Parangolés. Por isso, dizer que o Parangolé de Oiticica está sendo exposto é um contra-senso. O que importa agora é a criação de espaços livres para a participação e invenção criativa do espectador. O objetivo da participação, nos indica Hélio Oiticica, "é dar ao homem, ao indivíduo de hoje, a possibilidade de 'experimentar a criação', de descobrir pela participação, esta de diversas ordens, algo que para ele possua significado."

O que o Parangolé nos propõe é o deslocamento da experiência do campo intelectual racional para o da proposição criativa vivencial. E isto só é possível com a radicalização da vivência através da manipulação, do movimento e da utilização plurisensorial da "obra". Novamente damos voz a Oiticica: "O que interessa é justamente jogar de lado toda essa porcaria intelectual, ou deixá-la para os otários da crítica antiga, ultrapassada, e procurar um modo de dar ao indivíduo a possibilidade de 'experimentar', de deixar de ser espectador para ser participador."

Parangolé, portanto, não é uma "obra", mas o "lugar" no qual a experiência artística se funda. Seu objetivo é uma intensificação da vida, da agitação do pulso, da batida do coração, levando o indivíduo a trocar a percepção artística pela expressão artística.

Num primeiro momento, Oiticica aproxima-se de Marcel Duchamp no tocante ao questionamento do estatuto da arte: a obra de arte é apenas o ato artístico mumificado em um museu. A proposta da "antiarte" consiste em sensibilizar o cotidiano através da repotencialização do "coeficiente" criativo do indivíduo, sem pretender impor um padrão estético. Funda-se aqui uma ética para a qual a liberdade reside numa tentativa constante de autodesprendimento e auto-invenção.

Num segundo momento, superando a idéia duchampiana de que o que determina o valor estético já não é um procedimento técnico, um trabalho, mas um puro ato mental, uma atitude diferente em relação à realidade, Oiticica leva o espectador a explorar a própria "fonte" da linguagem, ou melhor, recapturar a linguagem em sua fonte. Despojando a arte de qualquer fim transcendente ou estético, faz com que subsista apenas o mero ato artístico.

A arte agora está livre para assumir-se como um objeto de experiência, anunciando, inclusive, o fim da instituição da autoria. O Parangolé, decididamente anti-retórico, materializa-se enquanto experiência e desmaterializa-se enquanto arte. O desejo de uma experiência artística única, intransferível, entra em choque com a instituição da arte, o consumo mercadológico do objeto artístico, o primado da técnica e a emoção "estética". Deixa de ser puramente arte para virar um embate com o "mundo" da arte.

O que é proposto por Oiticica é uma estética da existência e não dos objetos, das formas de vida, não das formas de arte, sendo a obra apenas o ato de fazer a obra. Ou seja, uma ética do compromisso com formas constituídas de experiência, de libertação pessoal para a invenção de novas formas de vida (ou para ser mais certeiro, uma estética da auto-invenção).

Oiticica nos leva a pensar que a arte contemporânea traz em si mesma as fontes de todas as artes, que toda obra anterior nada mais é do que uma antecipação alegórica daquela. Com o objetivo de superar a distância entre arte e vida, propõe a experiência como eixo condutor do ato artístico. O objetivo é tirar o indivíduo da atitude meramente contemplativa e submergi-lo na sensibilidade ativa. Destruindo o consumidor pequeno-burguês da cultura, o homem da cultura asséptica, com sua tagarelice ociosa (séculos de interpretação), o indivíduo será levado à fonte irrepresentável ou não discursiva da experiência.

O interesse de Oiticica, ao criar o Parangolé, não foi outro senão o de levar o indivíduo ao dilatamento de suas capacidades artísticas, para a descoberta de seu centro interior criativo, de sua espontaneidade expressiva adormecida, condicionada ao cotidiano. E, termino aqui, com as palavras de Bergson, que sintetizam a experiência Parangolé: "Ao libertar e acentuar esta música, eles hão de impô-la à nossa atenção; farão com que venhamos a inserir-nos nela, como passantes que entram numa dança. E por aí impelir-nos-ão a vibrar nas profundezas de nosso ser, algo que só estava esperando o momento de vibrar".

Para saber mais:

FAVARETTO, Celso. A Invenção de Hélio Oiticica. São Paulo: EDUSP, 1992.

CATÁLOGO: Hélio Oiticica. Centro de Arte Hélio Oiticia. Rio de Janeiro; Galerie nationele du Jeu de Paume, Paris.

OITICICA, Hélio Oiticia & CLARCK, Lygia. Cartas: 1964-74. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1898.

OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

JUSTINO, José Maria. Seja Marginal, Seja Herói: modernidade e pós-modernidade em Hélio Oiticia. Curitiba: Ed. da UFPR, 1998.

SALOMÃO, Wally. Hélio Oiticia: qual é o parangolé. Rio de Janeiro: relume-Dumará, 1996.



Jardel Dias Cavalcanti 
Campinas, 17/12/2002
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=856&titulo=Parangole:_anti-obra_de_Helio_Oiticica