Domingo de Circo
Toda tua chegada nessa radiosa manhã de domingo embandeirada de infância. Solene e festivo circo armado no terreno baldio do meu coração.
As piruetas do palhaço são malabaristas alegrias na vertigem de não saber o que faço.
Rugem feras em meu sangue; cortam-me espadas de fogo.
Motos loucas de globo da morte, rufar de tambores nas entranhas, anúncio espanholado de espetáculo, fazem de tua chegada minha sorte.
Domingo redondo aberto picadeiro, ensolarado por tão forte ardor, me refunde queima alucina:
olhos vendados,
sem rede sobre o chão,
atiro-me do trapézio
em teu amor.
Do livro A Arte de Semear Estrelas, de Frei Betto.

domingo, 16 de outubro de 2011

Ecodestruidade no interior de São Paulo


Armando Malheiro de Oliveira Jr., fotógrafo e leitor de ((o))eco em Atibaia (SP) tem registrado o comportamento de aves em áreas úmidas de sua cidade natal. Nos últimos meses, ele notou que algumas aves, em especial a garça-branca, tem sid afetada pela atividade de pescadores. Aqui o relato de Oliveira Jr. e veja fotos abaixo.

"Já tem alguns meses que venho acompanhando e fotografando estas aves em lagos da área urbana da cidade de Atibaia, a garça branca grande (fotos1,2 e 3) costuma ficar no Lago do Major e está sempre muito próxima dos pescadores (foto2) em busca de alimento (foto3), perceba também a sujeira do lago (foto 1)."

Garça-branca ferida com anzol no Lago Major

Pescadores no Lago Major

Disponibilidade de alimentos atrai as garcas


"As fotos 4 e 5 foram feitas no Jd. do Lago que está ainda mais sujo que o primeiro, neste lago é fácil avistar Biguás, Martim pescador, Socó e outros, para minha surpresa esta garça da foto 4 , que pelo véu que cresce em suas penas deve estar em época de acasalamento, tinha um anzol enorme na asa. "

Garça com asa machucada


"Quando estou fotografando nestas áreas os moradores me procuram e pedem para que eu faça alguma coisa a respeito, pois estão revoltados com a situação também, a foto 5 traduz isto, e por fim a patinha que fica num lago a frente, com um anzol inteiro na pata, é de cortar o coração."

Garca-branca pequena no Jd. do Lago


Estive procurando alguém para socorrer os bichos e me indicaram a polícia ambiental, pretendo contatá-los. Faz tempo que reparei que havia algo de errado, mas foi semana passada que percebi os anzóis. Aves no Anzol, não pode! Estou fotografando com um equipamento de melhor qualidade há pouco tempo, e é estranho para mim e clichê para outros, mas é verdade, quem fotografa quer preservar."

http://www.oeco.com.br/fauna-e-flora/25358-fotografo-revela-danos-de-anzol-nas-aves

Conheça a Escola de Televisão & Arte Eletrônica – ETAE


Prezados Colegas,
Há treze anos a Escola de Televisão & Arte Eletrônica – ETAE contribui na capacitação e no crescimento coletivo do setor audiovisual do nosso país. 
Em 2002 o criador da escola – Valter Bonasio - lançou o livro “Televisão Manual de Produção & Direção” (Editora Leitura). A obra é tida pelos profissionais de TV, Cinema, professores e coordenadores de cursos de comunicação das principais universidades brasileiras e de países de língua portuguesa como a “bíblia do audiovisual”. O livro e os cursos online são oferecidos totalmente gratuitos através do site 
www.escoladetelevisao.com.br

Com este pequeno gesto, demonstramos responsabilidade nesse contexto social, fazendo a nossa parte, contribuindo para a capacitação e o crescimento coletivo do setor audiovisual do nosso país.
A ESCOLA DE TELEVISÃO lançou neste mês de outubro um “Pacote de Programas Integrado” para a gestão do processo de criação e realização de conteúdo audiovisual de alta qualidade. Este software é composto por vários aplicativos, e o primeiro a ser lançado é o "ORÇAMENTO" que já está disponível gratuitamente no nosso portal.
A ESCOLA DE TELEVISÃO & ARTE ELETRÔNICA está permanentemente desenvolvendo novos conteúdos e sempre buscando novas formas de transmitir conhecimentos extremamente úteis na capacitação e atualização profissional através do nosso portal.
Saudações Televisivas!
Relações Públicas
ESCOLA DE TELEVISÃO & ARTE ELETRÔNICA - ETAE.
www.escoladetelevisao.com.br

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Edgar Morin propõe a religação dos saberes com novas concepções sobre o conhecimento e a educação


Edgar Morin

Sociólogo francês propõe a religação dos sabres com novas concepções sobre o conhecimento e a educação

01/07/2011 00:15
Texto Márcio Ferrari
Nova-Escola
Foto: Wikimedia
Foto: A simplificação, de acordo com Morin, está a serviço de uma falsa racionalidade
A simplificação, de acordo com Morin, está a serviço de uma falsa racionalidade
Frases de Edgar Morin:

“A escola, em sua singularidade, contém em si a presença da sociedade como um todo”

“A ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar”


Mudanças profundas ocorreram em escala mundial nas últimas décadas do século 20, entre elas o avanço da tecnologia de informação, a globalização econômica e o fim da polarização ideológica entre capitalismo e comunismo nas relações internacionais. Diante desse cenário, o sociólogo francês Edgar Morin, hoje com 87 anos, percebeu que a maior urgência no campo das idéias não é rever doutrinas e métodos, mas elaborar uma nova concepção do próprio conhecimento. No lugar da especialização, da simplificação e da fragmentação de saberes, Morin propõe o conceito de complexidade.

Ela é a idéia-chave de O Método, a obra principal do sociólogo, que se compõe de seis volumes, publicados a partir de 1977. A palavra é tomada em seu sentido etimológico latino, “aquilo que é tecido em conjunto”. O pensamento complexo, segundo Morin, tem como fundamento formulações surgidas no campo das ciências exatas e naturais, como as teorias da informação e dos sistemas e a cibernética, que evidenciaram a necessidade de superar as fronteiras entre as disciplinas. “Ele considera a incerteza e as contradições como parte da vida e da condição humana e, ao mesmo tempo, sugere a solidariedade e a ética como caminho para a religação dos seres e dos saberes”, diz Izabel Cristina Petraglia, professora do Centro Universitário Nove de Julho, em São Paulo.

Para o pensador, os saberes tradicionais foram submetidos a um processo reducionista que acarretou a perda das noções de multiplicidade e diversidade. A simplificação, de acordo com Morin, está a serviço de uma falsa racionalidade, que passa por cima da desordem e das contradições existentes em todos os fenômenos e nas relações entre eles.

Pré-história do saber

Acima de tudo, o sociólogo francês defende a introdução da incerteza e da falibilidade na rigidez cultural do Ocidente. As limitações causadas pela compactação do conhecimento, de acordo com o educador, são responsáveis por manter o espírito humano em sua pré-história. Além disso, a tendência de aplicar conceitos abstratos vindos das ciências exatas e naturais ao universo humano resulta em desconsideração por aspectos como o ambiente, a história e a psicologia, entre outros. Um exemplo, diz o pensador, é a economia, a mais avançada das ciências sociais em termos matemáticos e a menos capaz de trabalhar com regularidades e previsões.

Para recuperar a complexidade da vida nas ciências e nas atividades humanas, Morin recomenda um pensamento crítico sobre o próprio pensar e seus métodos, o que implica sempre voltar ao começo. Não se trata de círculo vicioso, mas de um procedimento em espiral, que amplia o conhecimento a cada retorno e, assim, se coaduna com o fato de o homem ser sempre incompleto – o aprendizado é para toda a vida. “A reforma do pensamento pressupõe a consciência de si e do mundo”, diz Izabel Cristina. “Ela decorre da reforma das instituições e vice-versa.”

Nos processos em espiral, é necessário conhecer os conceitos de ordem, desordem e organização. Do ponto de vista da complexidade, ordem e desordem convivem nos sistemas. O que diferencia o todo da soma das partes é o que Morin denomina comportamento emergente. Nos seres humanos, a dinâmica entre ordem e desordem se subordina à idéia de auto-eco-organização: a transformação extrapola o indivíduo, se estendendo ao ambiente circundante. Uma vez que tudo está interligado, a solidariedade é tida pelo sociólogo como peça fundamental para superar aquilo que denomina crise planetária – uma situação de impotência diante de incertezas que se acumulam.

Ouvir os jovens

Não há espaço em que a fragmentação do conhecimento esteja tão explícita quanto na escola, com sua estrutura tradicional de parcelamento do tempo em função de disciplinas estanques. Por outro lado, a diversidade de sujeitos e objetos em busca de conexões fazem da sala de aula um fenômeno complexo, ideal para iniciar o processo de mudança de mentalidades defendida por Morin. A meta é a transdisciplinaridade. “Só convencido de que tudo se liga a tudo e de que é urgente aprender a aprender, o educador adquirirá uma nova postura diante da realidade, necessária para uma prática pedagógica libertadora”, observa Izabel Cristina.

Contra a idéia arraigada de que a decomposição do conhecimento responde à suposta limitação intelectual das crianças, o pensador afirma que elas têm as mesmas inquietações dos adultos. Ouvir os alunos, naturalmente sintonizados com o presente, é a melhor maneira de o professor investir na própria formação. Esse também é o caminho para construir um programa de ensino focado no próprio estudante e suas referências culturais, porque as grandes metas da educação deveriam ser o desenvolvimento da compreensão e da condição humana. Segundo Morin, o profissional mais preparado para operar essa mudança de enfoque é o professor generalista dos primeiros anos do Ensino Fundamental, por ter uma visão ampla do processo.

Sete saberes indispensáveis

Em sua defesa da religação dos saberes, Morin tocou numa inquietação disseminada nos dias atuais, quando a tecnologia permite um acesso inédito às informações. Por isso a Organização das Nações Unidas pediu a ele uma relação dos temas que não poderiam faltar para formar o cidadão do século 21. Assim nasceu o texto Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. A lista começa com o estudo do próprio conhecimento. O segundo ponto é a pertinência dos conteúdos, para que levem a “apreender problemas globais e fundamentais”. Em seguida vem o estudo da condição humana, entendida como unidade complexa da natureza dos indivíduos. Ensinar a identidade terrena é o quarto ponto e refere-se a abordar as relações humanas de um ponto de vista global. O tópico seguinte é enfrentar as incertezas com base nos aportes recentes das ciências. O aprendizado da compreensão, sexto item, pede uma reforma de mentalidades para superar males como o racismo. Finalmente, uma ética global, baseada na consciência do ser humano como indivíduo e parte da sociedade e da espécie.

Para pensar

Na opinião de Edgar Morin, cabe aos professores do Ensino Fundamental começar a derrubar as barreiras entre os conhecimentos, por duas razões principais: eles têm a experiência generalista (pelo menos os que trabalham nas séries iniciais) e lidam com as crianças mais novas, que guardam uma curiosidade e um modo de pensar ainda não influenciados pela separação dos conteúdos em disciplinas. Será que os professores se dão a liberdade de preparar aulas sem necessariamente parcelar o horário em períodos estanques?

http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/edgar-morin-307906.shtml

Lêdo Ivo cobra uma poesia mais indignada com problemas sociais



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CARMEN SIGÜENZA
DA EFE, EM MADRI
O poeta Lêdo Ivo, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), está em visita à Espanha. Em Madri, o poeta foi convidado para apresentar uma palestra na Residência de Estudantes, mesmo lugar no qual falou nesta segunda-feira (10) sobre a falta de consciência social e a de compromisso que a literatura possui atualmente.
"Existe um excesso de atenção ao eu próprio. Parece que a indignação acabou, que os problemas sociais e de coletividade não são mais dos criadores. Hoje em dia, os poetas acabam prestando mais atenção aos assuntos amorosos e sentimentais do seu próprio eu", explicou o poeta.
O poeta disse sentir uma devoção pela literatura espanhola desde criança, citando obras de García Lorca, Alberti e toda sua geração, além de Lope de Vega, Gonzalo de Berceo e Antonio Machado, seu preferido.
Lêdo Ivo é uma personalidade simbólica na sociedade, e, aos 87 anos, apresenta uma vitalidade e um discurso apaixonado de fazer inveja até aos mais jovens. O narrador, ensaísta, jornalista e, principalmente, poeta pertence à Geração de 45, um grupo de escritores que se mostrava contrário ao modernismo de 1922. Esse movimento literário contava com João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Rubem Braga, Clarice Lispector, entre outros.
"Nasci poeta e entendo que o mundo se divide entre os poetas, formados por literatos, arquitetos, pintores, dançarinos e músicos, e os que não têm voz. Esses são os poetas que dão voz e música para os que não têm", argumentou o autor de "As Imaginações", "Rumor da Noite" e "Ode e Elegia", vencedor do prêmio de Poesia da ABL.
Fernando Rabelo/Folhapress
Poeta Lêdo Ivo
Poeta Lêdo Ivo
Amante de sonetos, dos versos longos e adorador de T.S Eliot, Lêdo Ivo afirmou que seus escritores favoritos são originários mais de França e Inglaterra do que de Portugal e do próprio Brasil.
"Acreditamos que estamos mudando muito no Brasil, mas ainda existe uma grande desigualdade. Nosso futuro depende de uma melhor educação e de uma melhor formação. Esse é nosso grande desafio", acrescentou Ivo.
Poeta da nudez, da música e com mais de 66 anos de atividade, Lêdo Ivo disse que se sente melhor poeta na velhice do que na juventude. "Agora posso refletir mais, tenho mais sentimento de conciliação metafísica e vejo mais o minúsculo, o cotidiano. Além disso, estou mais marcado pelas emoções", destacou.
Para o escritor, a poesia tem um papel fundamental na memória do mundo. "Se não tivesse existido Gómez de Quevedo e Gonzalo de Berceo, por exemplo, saberíamos muito pouco sobre a Espanha", concluiu Ivo, exaltando que o poeta é uma espécie de "máscara", uma imagem que esconde sua face verdadeira.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/988510-ledo-ivo-cobra-uma-poesia-mais-indignada-com-problemas-sociais.shtml

As vozes dos Pataxó da Bahia revelam: luta, resistência e agentes de sua própria história


AS VOZES DOS PATAXÓ DA BAHIA
José Ribamar Bessa Freire
02/10/2011 - Diário do Amazonas


Mesmo depois de morto, Antonio Carlos Magalhães, o Toninho Malvadeza, continua aprontando. É que, nos anos 1970, quando vivo - vivíssimo aliás - ele doou aos seus parentes, amigos, afilhados e xerimbabos as terras dos Pataxó, demarcadas em 1938. Os índios nunca aceitaram o esbulho e recorreram, numa luta que dura mais de 25 anos. Agora, está na pauta do Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento da nulidade dos títulos de terra dados aos fazendeiros em ação impetrada pela Funai, em nome dos índios. Valei-nos São Ayres Britto!
A comunidade virtual Literatura Indígena, moderada pela escritora indígena Eliane Potiguara, entrou pra valer nessa briga, com petições, denúncias e informações proporcionadas por Liana Utinguassu, Juvenal Payaya e outros. Eles lembram o que aconteceu com o índio Galdino Jesus dos Santos, que teve seu corpo incendiado por cinco jovens da classe média de Brasília na madrugada do dia 20 de abril de 1997, quando buscava apoio para recuperar o território tradicional de seu povo – a Terra Indígena Caramuru-Paraguassu, no sul da Bahia.
Com Galdino, já são 30 os Pataxó Hã-Hã-Hãe assassinados na luta pela retomada de suas terras. Os índios estão fortemente documentados em seus direitos, como comprovam os documentos da 4ª Inspetoria Regional e dos Postos Indígenas Caramuru-Paraguaçu, que o Museu do Índio começou a recuperar a partir de 1976, havendo publicado em 2002 um catálogo intitulado: Povos Indigenas no Sul da Bahia. Posto Indígena Carumuru-Paraguaçu (1910-1967).
Condenados ao esquecimento e ao silêncio, muitos índios do sul da Bahia permaneceram invisíveis nos arquivos do SPI. Eram lembrados apenas por seus filhos e netos, em fragmentos dispersos da tradição oral. Mas para a sociedade nacional, continuavam desconhecidos, calados, à margem da história. Não se sabia quem eram, o que pensaram e o que fizeram no período em que viveram, entre 1910 e 1967.
Eram índios emudecidos, até que uma equipe do Serviço de Estudos e Pesquisas do Museu do Índio leu, analisou, selecionou e fichou o conjunto documental, organizando-o cronologicamente e fazendo uma descrição do seu conteúdo, naquilo que ele tem de essencial. Ai, então, esses índios, localizados e identificados, emergiram dos documentos, com nome próprio e, algumas vezes, até sobrenome e apelido.
Os índios que aparecem na documentação desse catálogo não só passaram a existir, como também adquiriram voz. Eles falam e, algumas vezes, escrevem. E quando escrevem, reclamam, protestam, argumentam, registram as alianças feitas, desfeitas e refeitas, na luta pela terra e pela identidade. É possível ouvir o que dizem, recuperando suas palavras, registradas na documentação oficial inventariada.
Os discursos atravessam o tempo, chegando até nós por dois caminhos: pela via do relato oral, recolhido e transcrito por funcionários do aparelho de estado e, sobretudo, pela via escrita, através de bilhetes, cartas, recibos, requerimentos, ofícios, muitas vezes redigidos de próprio punho.
Afinal, o que é que dizem os índios nesses documentos? Eles protestam contra a invasão de suas terras por arrendatários, fazendeiros e jagunços; reclamam das perseguições, violências, ameaças e arbitrariedades; denunciam a ação de pistoleiros, a queima de suas roças e o envenenamento da água de seus poços; relatam e descrevem as condições das posses; passam recibos de vendas de benfeitorias; requerem e apresentam as mais diversas solicitações, algumas bastante prosaicas, mas carregadas de significados.
Os documentos arquivados no Posto Indígena, produzidos pelos índios do sul da Bahia estão escritos em português. A simples leitura do inventário é suficiente para evidenciar que a documentação contém um corpo de informações de interesse para os lingüistas e, especialmente, como ferramenta de luta, capaz de acabar com qualquer dúvida relacionada ao direito dos Pataxó à terra.
A voz do índio nos documentos sugere também considerações de ordem histórica, pois a correspondência escrita, dirigida quase sempre ao chefe do posto ou ao inspetor regional, tinha o objetivo explícito de cobrar providências da agência estatal para a solução de algum problema ou conflito, em geral, de natureza fundiária. Alguns ofícios, no entanto, circularam por instâncias superiores, percorreram corredores de ministérios, chegando até mesmo à presidência da República.
É o caso, já nos anos 60, em plena ditadura militar, dos índios que continuaram reivindicando. Um dos documentos registra a “reclamação da índia Delzuita Santana Souza dirigida ao presidente da República”, na época o marechal Castelo Branco, solicitando providências “por crime de esbulho de suas terras sem que houvesse atitude saneadora por parte do SPI”(Registro 2031).
A leitura dos documentos fornece elementos de extraordinária riqueza, que permitem repensar o papel do índio como espectador passivo da história, imagem lamentavelmente ainda bastante difusa na sociedade brasileira. A documentação inventariada vai revelando, aqui e ali, que os índios do sul da Bahia não contemplaram, de braços cruzados, a expropriação de suas terras, mas resistiram, com variadas formas de luta, procurando um lugar na história, como agentes de seu próprio destino. Agora, cabe ao STF fazer justiça, anulando a falcatrua do Toninho Malvadeza.

domingo, 9 de outubro de 2011

Livro auxilia no combate ao uso de agrotóxicos e em defesa da vida


(1’47” / 417 Kb)  - O livro “Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida” traz informações sobre os riscos dos venenos na agricultura, formas de prevenir e notificar intoxicações, além de apontar para uma forma alternativa de produção agrícola – a agroecologia.
A publicação atua como um material educativo sobre os riscos dos agrotóxicos ao meio ambiente é à saúde humana. Contribuíram com análises e revisão de conteúdo integrantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e professores universitários, como a médica Raquel Rigotto.
A jornalista e autora do livro, Flavia Londres, comenta o contexto social que deu origem a esse material. 
“Se de um lado tem um cenário muito preocupante, muito assustador de descontrole do uso de venenos no Brasil. Por outro, nós temos um momento de união de forças muito grande, o tema está ficando cada vez mais em evidência, a Campanha Permanente [Contra o Uso de Agrotóxicos] tem tido um sucesso muito grande, sobretudo depois do lançamento do filme do Silvio Tendler [“O veneno está na mesa”]. E é um momento importante também de fortalecimento da luta, de unir forças, ampliar essa campanha e levar esse trabalho para frente”.
A obra foi lançada no final de setembro durante o “Encontro Nacional de Diálogos e Convergências”, que reuniu organizações de agroecologia, saúde, economia solidária, entre outros.
A realização do livro é da Articulação Nacional de Agroecologia e da Rede Brasileira de Justiça Ambiental. O livro tem tiragem de 1.5 mil exemplares e está disponível gratuitamente em formato digital através do site aspta.org.br - página da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA).
De São Paulo, da Radioagência NP, Vivian Fernandes.
07/10/11

A morte de Steve Jobs, o inimigo número um da colaboração

É inegável que Jobs foi um grande designer, cujas sacadas levaram sua empresa ao topo do mundo. Mas há outros aspectos a explorar e sobre os quais pensar neste momento de sua morte.

Por Rodrigo Savazoni [07.10.2011 09h15]
Steve Jobs morreu, após anos lutando contra um câncer que nem mesmo todos os bilhões que ele acumulou foram capazes de conter. Desde ontem, após o anúncio de seu falecimento, não se fala em outra coisa. Panegíricos de toda sorte circulam pelos meios massivos e pós-massivos. Adulado em vida por sua genialidade, é alçado ao status de ídolo maior da era digital. É inegável que Jobs foi um grande designer, cujas sacadas levaram sua empresa ao topo do mundo. Mas há outros aspectos a explorar e sobre os quais pensar neste momento de sua morte.
Jobs era o inimigo número um da colaboração, o aspecto político e econômico mais importante da revolução digital. Nesse sentido, não era um revolucionário, mas um contra-revolucionário. O melhor deles.
Com suas traquitanas maravilhosas, trabalhou pelo cercamento do conhecimento livre. Jamais acreditou na partilha. O que ficou particularmente evidente após seu retorno à Apple, em 1997. Acreditava que para fazer grandes inventos era necessário reunir os melhores, em uma sala, e dela sair com o produto perfeito, aquele que mobilizaria o desejo de adultos e crianças em todo o planeta, os quais formam filas para ter um novo Apple a cada lançamento anual.
A questão central, no entanto, é que o design delicioso de seus produtos é apenas a isca para a construção de um mundo controlado de aplicativos e micro-pagamentos que reduz a imensa conversação global de todos para todos em um sala fechada de vendas orientadas.
O que é a Apple Store senão um grande shopping center virtual, em que podemos adquirir a um clique de tela tudo o que precisamos para nos entreter? A distopia Jobiana é a do homem egoísta, circundado de aparelhos perfeitos, em uma troca limpa e “aparentemente residual”, mediada por apenas uma única empresa: a sua. Por isso, devemos nos perguntar: era isso que queríamos? É isso que queremos para o nosso mundo?
Essa pergunta torna-se ainda mais necessária quando sabemos que existem alternativas. Como escreve o economista da USP, Ricardo Abramovay, em resenha sobre o novo livro do professor de Harvard Yochai Benkler The Penguin and the Leviathan, a cooperação é a grande possibilidade deste nosso tempo.
“Longe de um paroquialismo tradicionalista ou de um movimento alternativo confinado a seitas e grupos eternamente minoritários, a cooperação está na origem das formas mais interessantes e promissoras de criação de prosperidade no mundo contemporâneo. E na raiz dessa cooperação (presente com força crescente no mundo privado, nos negócios públicos e na própria relação entre Estado e cidadãos) estão vínculos humanos reais, abrangentes, significativos, dotados do poder de comunicar e criar confiança entre as pessoas.”
Colaboração: essa, e não outra, é a palavra revolucionária. E Jobs não gostava dela.
Publicado originalmente aqui.

Grupo ensina humildade a juiz e promotor


Entidade que reúne profissionais de direito faz palestras e videoaulas para conter vaidade e prepotência no cargo


Para líder de entidade, forma como se exerce a autoridade é problema crônico do sistema de Justiça brasileiro hoje

ROGÉRIO PAGNAN
DE SÃO PAULO

Um magistrado do Rio processa o condomínio onde mora para ser chamado de "doutor" pelo porteiro.
Outro, de Franca, manda prender um policial de trânsito que lhe repreende por falar ao celular no volante.
Um procurador de São Paulo ameaça prender uma aluna que questiona seus métodos de ensino na aula.
Comportamentos como esses envolvendo autoridades brasileiras são mais comuns do que se imagina.
Tornaram-se, inclusive, alvo de um trabalho de uma associação dirigida por juízes, promotores e advogados espíritas.
"Esse é um dos problemas crônicos do sistema de Justiça brasileiro. Há um problema comportamental que envolve vaidade e prepotência", afirma o promotor Tiago Essado, presidente da AJE (Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo).
"Não estamos nos excluindo desse comportamento. Estamos reconhecendo o problema e a necessidade de modificá-lo. Fazemos reformas nas leis, mas, às vezes, o problema não está nela. Está na postura", afirmou.
Desde 2009, a associação vem promovendo palestras e videoaulas para tentar ensinar aos colegas (atuais e futuros) como lidar com seus cargos tão poderosos sem ser absorvidos por eles.
A tarefa não é simples. Especialistas dizem que a sensação de poder chega a provocar prazer, pela endorfina, em algumas pessoas.
Essado estima que cerca de cem juízes e promotores já tiveram a aula "O Exercício da Autoridade com Humildade".
A AJE, que também defende o uso de cartas psicografadas em processos judiciais, tem mais de 400 associados.
As palestras presenciais são gratuitas, marcadas de tempo em tempo. A videoaula é vendida pelo site www.ajesaopaulo.com.br. O DVD custa R$ 15 (para sócio) e R$ 25 (para não sócio).

ESTUDANTES
O maior público é de alunos de direito. A associação visita universidades levando a mensagem e estima ter atingindo cerca de mil estudantes pelo país. Para especialistas, esse é o melhor público para ser abordado.
Um dos principais palestrantes é o juiz Donizete Aparecido Pinheiro da Silveira, 55, de Marília. Na videoaula, o magistrado aconselha que a humildade seja treinada. "Mesmo que em um primeiro momento a humildade pareça falsa, é preciso insistir. Precisa ser desenvolvida."
Entre as dicas, o magistrado fala da efemeridade das pessoas diante de suas funções. Da diferença do ser e do estar das profissões.
"A autoridade precisa saber que está juiz, e não é juiz. O mandato se perde", afirma.
O magistrado pode até resistir em deixar o cargo, explica, mas esse dia vai chegar mais cedo ou mais tarde até porque existe um mecanismo legal para "expelir" os resistentes, chamado "expulsória". "Quando completa 70 anos, ele entrega a toga, coloca pijamas e vai para casa", completa o magistrado.
Também argumenta que as autoridades não têm o poder que elas acreditam ter. A força é da lei, que as autoridades precisam respeitar.
À Folha Silveira diz que a intenção do trabalho não é ensinar, mas argumentar que é possível exercer a autoridade com humildade.
"O exercício da autoridade dispensa a conduta prepotente, arrogante, violenta ou permissiva de quem ocupa um cargo público."

Julgar traz sensação de poder, diz psicóloga

DE SÃO PAULO

Para a psicóloga Liliana Seger, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, a função de julgar o destino das pessoas traz aos juízes uma sensação muito grande de poder.
Essa sensação, também observada em outras profissões relacionadas a poder, como a de promotor, chega a liberar endorfina no corpo, o que faz a pessoa sentir prazer. "Quanto mais atua, mais ele se sente poderoso. E não tem ninguém acima dele para dizer: para!", afirma.
A psicóloga diz acreditar que, por isso, as aulas de humildade da associação só serão assimiladas por pessoas já inclinadas à humanidade e não deverão surtir efeito em quem tem soberba.
"Elas vão dizer: `que bobagem. Você acha que vou seguir essa lorota de ser bonzinho?' Não pega. Vai pegar em quem já tem esse perfil."
Liliana diz que os juízes e promotores com esse tipo de comportamento muitas vezes não têm noção disso. Não percebem, por exemplo, nem que maltratam seus subordinados.
"Acham que estão acima do bem e do mal. Se humilham um funcionário, até pensam que estão ajudando. `Mostrei como é a realidade dos fatos'", afirma.
Liliana diz que, para ela, o trabalho da associação pode surtir melhor resultado nos estudantes, mas as aulas precisam ocorrer com alguma regularidade. "Se vai às faculdades e trabalha muito isso, pode ser maravilhoso, porque o professor é exemplo", diz.
Até porque, segundo ela, muitos profissionais soberbos dão aulas e acabam passando uma mensagem errada de que, para ser bem-sucedido na carreira, precisa ser assim.
"É um modelo inadequado, mas para eles é adequado porque a pessoa se deu bem. Ainda é muito associado o fato de que ser bravo, ser duro, é ser competente. Pelo contrário. Quanto menos soberbo, mais competente." (RP)

FRASES

"Muitos de nós não se aposentam por quê? Porque vamos perder essa deferência [ser chamado de excelência], esse respeito"

"Não adianta me colocar num pedestal, porque sou um cidadão também. Sou juiz, por circunstância"
DONIZETE APARECIDO PINHEIRO DA SILVEIRA
Juiz


Extrapolar não é comum, afirma procurador-geral

DE SÃO PAULO

O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Fernando Grella, diz que os casos de autoridades que extrapolam os limites de seus cargos não são comuns.
"Existem, mas são raríssimos", afirmou. De acordo com o chefe doMinistério Público paulista, a maior parte dos promotores age com bom senso e equilíbrio, porque cumprem a lei e se pautam pelos ordenamentos jurídicos.
"A pessoa precisa ter a exata noção das responsabilidades da função, de que é muito mais para servir."
Sobre o comportamento de juízes e promotores, Grella afirma que ações praticadas por autoridades têm uma repercussão muito maior do que quando se trata de pessoas comuns.
Por isso, na opinião do procurador, há a necessidade de um cuidado especial.
"É preciso ter um cuidado, mesmo com os atos da vida pessoal, até pelo simbolismo muito forte de ter sido praticado por alguém que exerce um cargo no Ministério Público, na magistratura. Um ato que qualquer outro poderia praticar e não ter um impacto, uma repercussão social."(RP)

http://cnj.myclipp.inf.br/default.asp?smenu=&dtlh=194770&iABA=Not%EDcias&exp=